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Contestado

Publicado: Terça, 31 de Julho de 2018, 18h54 | Última atualização em Segunda, 17 de Setembro de 2018, 14h37 | Acessos: 2063
A aventura cabocla do Contestado: o conflito e seu desfecho

Paulo Pinheiro Machado

A Guerra do Contestado foi um conflito ocorrido entre sertanejos e as forças do Estado, incluindo exército e polícias de Santa Catarina e do Paraná, no planalto fronteiriço destes estados, entre 1912 e 1916. As forças militares foram chamadas por chefes políticos locais, oficiais da Guarda Nacional, representantes de grandes fazendeiros e empresários estrangeiros, proprietários da Companhia Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande e da gigantesca madeireira de Três Barras. Entre as razões do conflito podemos apontar a luta pela terra, a resistência ao Coronelismo e a reação ao deslocamento compulsório de populações nacionais pela construção de uma linha férrea. Durante o conflito morreram mais de 10 mil pessoas, a maioria civis atingidos pelo cerco militar, pelos combates, pela fome e epidemias.

 

Antecedentes

O território onde se desenrolou o conflito era uma antiga região disputada, daí o nome Contestado. Inicialmente havia a disputa entre Brasil e Argentina sobre os Campos de Palmas, porção de mais de 30 mil km² localizada entre os rios Uruguai e Iguaçu. Em 1895, através da arbitragem do Presidente Cleveland, dos Estados Unidos, o Brasil venceu esta questão.

Localmente, permanecia a disputa dos Campos de Palmas entre os Estados de Santa Catarina e Paraná. Os catarinenses se baseavam em documentos judiciários e militares do período colonial, que definiam como divisa ao norte de sua Capitania os leitos dos rios Negro e Iguaçu. Já os paranaenses, recém emancipados (em 1853) da Província de São Paulo, argumentavam pela ocupação efetiva do território, o princípio do uti possidetis, já que foram os paulistas que haviam estabelecido as primeiras fazendas e os primeiros núcleos urbanos.

O planalto meridional, em toda faixa que descia de Sorocaba, em São Paulo, até os campos de Vacaria, no Rio Grande do Sul, era uma formação florestal mista, com a mata atlântica entrecortada por grandes conjuntos de araucária e ervais nativos (de arvores de Ilex, que produzem a folha transformada em erva mate) e com alguns campos nativos, chamados de “campos de cima de serra”, regiões que logo foram apropriadas pelos grandes pecuaristas. Nas matas e faxinais vivia uma população nacional, os chamados caboclos, muitos indígenas destribalizados, descendentes de africanos e população mestiça, que compunham a principal camada de trabalhadores pobres da região.

No início da República os catarinenses ingressaram com uma ação no Supremo Tribunal Federal e, em 1904, conseguiram uma sentença favorável aos limites pleiteados junto ao Estado do Paraná. Os paranaenses entraram com recursos e embargos, mas nos anos de 1909 e 1910 Santa Catarina teve sua sentença favorável confirmada pelo STF. Apesar da vitória na justiça, o governo paranaense não se submeteu ao resultado, arguindo a inconstitucionalidade da decisão e colocando todo o peso político do Estado para evitar a execução da sentença. Permanecia o impasse sobre a jurisdição sobre os territórios contestados.

 

A Tradição do monge João Maria

Desde meados do século XIX este território era trilhado por determinados indivíduos que foram denominados como “monges” e “profetas” pela população sertaneja. O mais famoso deles foi o monge João Maria, um religioso leigo, que sinalizava determinadas fontes de águas, que logo passaram a ser denominadas pela população como “águas santas” ou “águas do monge”. O culto a João Maria passou a fazer parte do cotidiano de diferentes camadas da população planaltina, o que implicava em seguir determinados padrões de comportamento, atitudes de defesa das fontes de águas, restrições às queimadas e noções anticapitalistas próprias de um catolicismo popular. Segundo a tradição popular, João Maria profetizava sobre o futuro, criticava os novos tempos e divulgava um discurso apocalíptico que era muito bem recebido pela população pobre do planalto meridional. Vários indivíduos assumiram a identidade de João Maria, tendo relatos de homens com diferentes descrições físicas assumindo este papel. Para a tradição cabocla, só existiu um João Maria, normalmente chamado de São João Maria, que ainda existe, tem mais de 200 anos e vive “encantado” no morro do Taió, nas nascentes do rio Itajaí, em Santa Catarina. A influência do monge atingia todo o antigo caminho das tropas de muares e cavalares, uma extensa região que ia do Rio Grande do Sul até Sorocaba, em São Paulo.

Este planalto já tinha sido devastado anos antes, entre 1893 e 1895, na guerra entre federalistas e republicanos, conflito que envolveu lutas fratricidas e recrutamento militar forçado pelos dois bandos. Os republicanos representavam uma nova elite política, associada ao governo de Floriano Peixoto, deslocaram do poder local os antigos liberais do Império, que passaram a se denominar federalistas. Não havia uma distinção nítida entre os projetos políticos em jogo, mas os federalistas eram defensores do parlamentarismo e possuíam alguns defensores da Monarquia dentro de suas hostes, associaram-se à Revolta da Armada, para dar combate à Floriano e aos governos republicanos dos estados sulistas. Os federalistas foram derrotados, depois de vários revezes sofridos pelas forças republicanas.

 

A Brazil Railway e seu impacto na região

Entre o final do século XIX e o início do XX o governo federal planejou cortar a região contestada por um caminho de ferro. A ideia era realizar uma ligação férrea do Rio Grande do Sul com o restante do país, a Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande. A concessão desta obra foi adquirida pela Brazil Railway, grupo de Percival Farqhar em 1907 e, entre 1908 e 1910, mais de 300 km de linha férrea foram construídos, unindo o último trecho que faltava para integrar São Paulo ao Rio Grande, o trecho ao longo do vale do rio do Peixe, local que dividia os Campos de Palmas (território Contestado, administrado pelo Paraná) e o Estado de Santa Catarina. [Resumo do programa Percival Farquhar, ao organizar a Brazil Railway Company, feito e oferecido por Charles A. Gauld ]A empresa concessionária recebeu do governo federal até 15 km de cada lado da estrada de ferro como doação de terras devolutas para exploração madeireira e para colonização europeia. No entanto, dentro desta faixa de terrenos existiam muitos posseiros caboclos, indígenas e ervateiros que habitualmente residiam e trabalhavam nestas áreas públicas. Foram expulsos de suas terras por guardas da Estrada de Ferro. Entre 1911 e 1913, um ramal no sentido oeste-leste foi construído entre União da Vitória e Rio Negro, o que resultou em igual impacto social no vale médio do rio Iguaçu. Para explorar estes territórios a ferrovia criou uma firma subsidiária, a Brazil Lumber and Colonization Company, empresa responsável pela exploração das madeiras (principalmente de araucária) e pela colonização das terras com o parcelamento dos lotes e sua venda para imigrantes europeus. A população nacional estava vivendo o impacto da modernização local, que significou sua expulsão dos locais tradicionais de moradia e trabalho.

As disputas de jurisdição ocorriam sobre o território à oeste do vale do rio do Peixe, chamado de Campos de Palmas e sobre mais duas “saliências” paranaenses dentro do planalto catarinense: a saliência de Timbó e dos Campos de São João e a saliência de Três Barras-Rio Negro-Itaiópolis-Papanduva, todos territórios ocupados por autoridades paranaenses, mas que, desde a sentença no STF de 1904, deveriam pertencer ao Estado de Santa Catarina.

 

As andanças de José Maria

As tensões crescem quando ocorre uma concentração destes despojados, na localidade de Taquaruçu, que reuniu milhares de sertanejos em torno das práticas de um curandeiro, chamado José Maria, em agosto de 1912. O curandeiro tinha ficado famoso no primeiro semestre de 1912, por curar a esposa do fazendeiro Francisco de Almeida, do município de Campos Novos, que sofria de frequentes convulsões. Ao chegar na comunidade de Taquaruçu, no vizinho município de Curitibanos, José Maria, que tinha sido convidado pelos festeiros locais devido a fama adquirida por sua perícia, passou a ser alvo da desconfiança do chefe político local, Coronel Albuquerque, que temia que a concentração de sertanejos pobres em Taquaruçu fosse utilizada por seu inimigo local, o Coronel Henriquinho de Almeida (primo do fazendeiro de Campos Novos que teve a esposa curada por José Maria).

O prefeito de Curitibanos pediu ao Governador Vidal Ramos a ação do Regimento de Segurança do Estado para atacar o bando de José Maria, que passa a ser denominado de “ajuntamento de fanáticos e monarquistas”. O curandeiro, querendo evitar o conflito, dispersou seu o povoado e rumou com um pequeno grupo à oeste, atravessando o rio do Peixe, ingressando na região contestada sob administração paranaense, para a localidade de Irani, com a intenção de se livrar da perseguição do chefe político de Curitibanos.

 

O combate do Irani

O governo paranaense, temendo que a presença de José Maria e seu grupo pudesse criar tumultos que justificasse o emprego da tropa Federal que pudesse viabilizar o cumprimento da sentença do STF em favor de Santa Catarina, enviou uma força de seu Regimento de Segurança, chefiada pelo Coronel João Gualberto Gomes de Sá, com mais de 150 soldados, para atacar o povoado de Irani. A força paranaense, além de numerosa, era bem armada.

Em 22 de outubro de 1912 travou-se o combate do Irani, onde a força paranaense foi destroçada, mas o líder sertanejo, José Maria, também tombou neste entrevero. Com o tempo os sertanejos passaram por um processo de reelaboração mística e começaram a santificar a memória de José Maria, quase transformando-o em alguém com as mesmas capacidades do andarilho monge João Maria, que não apareceu durante o conflito.

A espera pela “volta” de José Maria junto ao “exército encantado de São Sebastião” deu uma expressão milenar e messiânica ao movimento do Contestado, principalmente para os povoados, chamados de “Cidades Santas” que passaram a se formar a partir de dezembro de 1913. Para estas localidades rumaram os sertanejos expulsos de suas terras, os opositores políticos dos Coronéis que dominavam os municípios do planalto e os veteranos da guerra Federalista.

 

A Cidade Santa de Taquaruçu

Mais de um ano após o combate do Irani se forma uma segunda concentração em Taquaruçu. Teodora, uma menina de 11 anos, passa a relatar que José Maria falava com ela em sonhos, que ordenava a seus seguidores para que se reunissem em Taquaruçu. Esta nova concentração transformou a cidadela em algo novo. Não era mais a concentração em torno de um curandeiro ou de uma festa. O segundo Taquaruçu deveria ser uma “Cidade Santa”, uma espécie de Nova Jerusalém, uma terra da justiça, da consciência e do bem-estar.

Para Taquaruçu se dirigiam moradores de diferentes regiões do planalto, abandonando seus sítios de origem e adotando um regime de trabalho comunitário, onde “quem tem, moi, quem não tem, também moi e no final todos ficam iguais”(moer é uma referência à atividade de moenda do milho em pilão, para fazer o beiju, alimento popular na região). A população não era ainda muito grande, se estima que viviam 400 pessoas em Taquaruçu ao final de 1913. Viveriam como iguais os possuidores de alguns bens e os que não possuíam nada. As relações comunitárias eram cimentadas pela tradição do monge João Maria e pela revivescência de suas prédicas, algo que os sertanejos chamavam de “Santa Religião”, uma religião popular e considerada mais verdadeira, diferente da religião dos padres e dos fazendeiros. As cidade santas, também chamadas de quadros santos, não apenas a de Taquaruçu, mas as seguintes, tinham uma disposição urbanística própria, com uma praça central para grandes reuniões, as formas, onde a população inteira se perfilava para ouvir os comandantes, praticar rezas e dividir as tarefas comunitárias de defesa e subsistência. Em torno da praça central existiam grandes cruzeiros nos vértices e uma igreja em frente, sendo muito semelhante ao modelo das reduções jesuíticas do século XVIII. O regime vigente em Taquaruçu era a Monarquia Celeste, cujo Rei, José Maria, havia “se passado” para o lado do “exército encantado de São Sebastião”. Desta maneira, não se tratava de um monarquismo político-institucional, não defendiam o retorno dos Bragança ao trono no Brasil, era uma espécie de Monarquia sem Rei, que abria o caminho à ascensão de diversas lideranças populares.

A menina Teodora era considerada como virgem vidente, que relatava a um conselho de anciãos sobre seus sonhos com José Maria. Em poucas semanas a liderança de Teodora foi substituída pelo seu tio Manoel e, depois seu irmão Joaquim, de 10 anos, considerados Meninos-Deuses. Os habitantes do reduto se autodenominavam pelados, já que muitos tinham sofrido a intimidação do Chefe político de Curitibanos, Coronel Albuquerque, e tiveram suas cabeças raspadas pelo Chefe de Polícia. Ao longo do tempo adotaram o corte rente do cabelo como fator visual distintivo dos moradores das cidades santas. Os representantes do governo, da polícia, do exército e dos grandes fazendeiros passaram a ser chamados de peludos. As primeiras cidades santas eram integradas por numero reduzido de seguidores de José Maria e se organizavam para ser comunidades autônomas, distantes das grandes cidades, como uma opção de vida de seus seguidores, procurando manter uma convivência pacífica com as populações circundantes.

Foi nesta época, do segundo Taquaruçu, que se formou uma unidade de elite dos sertanejos, uma unidade de combate conhecida como os Pares de França ou Pares de São Sebastião. Era um grupo seleto de sertanejos, hábeis na luta com arma branca e, ao mesmo tempo, conhecedores da “Santa Religião” e dos ensinamentos do monge João Maria. Consta que a denominação deste grupo, que variou muito seu efetivo, chegando a ser formado por mais de 100 integrantes em 1915, se deu por uma especial apropriação da leitura do antigo livro de cavalaria medieval, “A História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França”, onde determinados valores de honra, lealdade entre combatentes e luta contra “infiéis” foram absorvidos pela população do planalto e adaptados à nova luta que se iniciava.

No final de dezembro de 1913 ocorre um primeiro ataque ao povoado de Taquaruçu. 200 soldados do exército somados a um contingente do Regimento de Segurança de Santa Catarina tentou investir sobre o reduto caboclo. Os sertanejos resistiram numa trincheira na entrada de Taquaruçu e as forças legais dispersaram. Como os sertanejos sabiam de um novo ataque, em janeiro de 1914 passaram a construir uma nova cidade santa, em Caraguatá, 30 km ao norte de Taquaruçu, para onde os homens foram deslocados, no trabalho de edificação da nova cidade.

 

O massacre de Taquaruçu

Em 8 de fevereiro de 1914 houve o segundo e derradeiro ataque ao reduto de Taquaruçu. Uma força de mais de 700 soldados do exército e da polícia de Santa Catarina cercou o reduto e, durante um dia e uma noite bombardeou o povoado com tiros de morteiro e rajadas de metralhadoras. Nem houve chance da população local se defender. Segundo o dr. Cerqueira, médico do exército que acompanhou a ação, a visão do reduto no dia seguinte era aterradora. Um amontoado de pedaços de corpos de mulheres, crianças e velhos (já que os homens tinham se dirigido a Caraguatá para construir uma nova cidade santa) jaziam ao chão misturados aos pedaços de corpos de animais domésticos. O ataque foi sentido pelos habitantes do planalto como um gesto de covardia que só aumentou a revolta da população circundante e o apoio aos seguidores de José Maria.

Em Caraguatá quem assume a liderança é Maria Rosa. Será reconhecia como líder pela nova comunidade, formada pelos construtores deslocados de Taquaruçu e os mais novos aderentes na região norte do Município de Curitibanos. Maria Rosa será a virgem comandante. Era uma jovem de 14 anos, que dispensava a intermediação dos velhos, tinha o comando direto sobre o reduto, que chegava a pouco mais de 2 mil habitantes. Maria Rosa disse à população de Caraguatá que estavam enfrentando uma Guerra Santa, e que todos tinham que se armar contra os peludos.

 

O combate de Caraguatá e a vitória sertaneja

Em 9 de março de 1914 um contingente de 900 soldados do exército, da polícia de Santa Catarina e de uma tropa de “vaqueanos civis” (capangas de grandes fazendeiros da região) investiu para destruir o reduto de Caraguatá. Os sertanejos usaram de táticas de guerrilha, envolvendo várias unidades do exército em pequenos ataques pontuais, usando de franco atiradores nas copas altas das árvores e encurralando algumas unidades militares em espinheiros, locais de difícil fuga, sendo atacados em luta corporal, por arma branca, pelos Pares de França. Uma unidade cabocla atacou a retaguarda do exército colocando em fuga vários batalhões e atingindo o hospital de sangue. Os militares debandaram o local e seguiram em pequenos grupos até o vale do rio do Peixe onde se abrigaram nas estações da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande. A vitória sertaneja repercutiu em todo o planalto, o que fez com que novos aderentes, entre pobres, sitiantes expulsos de suas terras e veteranos da guerra federalista, se dirigissem ao comando de Maria Rosa.

Em abril de 1914 o reduto de Caraguatá foi abandonado pelos pelados, pois uma epidemia de tifo estava atacando a população residente. Formaram um novo reduto, na região de Caçador Grande, depois deslocado novamente para o reduto de Bom Sossego. Aqui a chefia de Maria Rosa declinou e passou a assumir o comando o jovem tropeiro Francisco Alonso de Souza, também chamado de Chiquinho Alonso. Bom Sossego era uma cidade santa com uma população que ultrapassava os 4 mil habitantes, sendo defendido por um conjunto numeroso de “guardas”, espécies de mini-redutos, com 50 a 100 habitantes, que guarneciam determinados caminhos e tocavam lavouras para sua subsistência e para o abastecimento do reduto-mor.

Em abril e maio de 1914 o exército chama unidades novas, provenientes do Rio Grande do Sul, sob comando do Marechal Mesquita que, depois de dar combate à guarda de Santo Antônio, não chegando ao reduto-mor, resolve recolher sua tropa e voltar ao sul. Mesquita se queixou da falta de orçamento, do pagamento obrigatório que tinha que fazer aos vaqueanos civis e das causas do conflito, que era a exploração de fazendeiros e comerciantes sobre os pobres caboclos, afirmando que a pacificação do Contestado deveria ser responsabilidade dos governos estaduais e das polícias.

 

A expansão rebelde

Depois do fracasso da expedição do Marechal Mesquita, os sertanejos passaram a multiplicar o número de redutos e cidades santas, e a expandir territorialmente sua influência. A ofensiva rebelde generalizada começa em julho de 1914. Sob a chefia de Chiquinho Alonso os redutários passam a atrair a população circundante, fazendo “convites” para ingressar nos redutos (convites que eram compulsórios), a atacar várias estações da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande, a serraria da Lumber de Calmon, e a tomar ao Vilas de Itaiópolis, Papanduva, Colônia Vieira e Curitibanos.

Ao norte do planalto o movimento rebelde cresce com a adesão de várias lideranças locais, como o Capitão Aleixo Gonçalves de Lima (antigo federalista), o professor Antônio Tavares (ex-Promotor Público da Vila de Canoinhas) e de Bonifácio Papudo (Bonifácio Alves dos Santos, ex-subdelegado em Canoinhas). Com eles seguem mais de 2 mil homens em armas e grandes contingentes de famílias de sertanejos que, além de construir cidades santas, também pugnavam pelo “cumprimento da sentença de limites”, já que muitos agricultores pobres desta região eram expulsos de seus sítios não apenas pela estrada de ferro (no ralam norte, entre União da Vitória e Rio Negro), mas também por Coronéis de Guarda Nacional, grandes fazendeiros ligados à política do Paraná. Os Coronéis Artur de Paula, Leocádio Pacheco, Bley Neto, Fabrício Vieira, Amazonas Marcondes e Juca Pimpão eram poderosos chefes políticos em Rio Negro, Timbó, União da Vitória e Palmas que se utilizavam da disputa de jurisdição territorial para avançar sobre território contestado e se apropriar de terrenos habitados por posseiros caboclos e ervateiros. Estes mesmos Coronéis forneciam grande contingente de vaqueanos civis para lutar junto com o exército na repressão aos pelados.

Ao sul os sertanejos tomaram a vila de Curitibanos e seguiram para Lages, cidade de origem do governador Vidal Ramos e sua oligarquia. A tomada de Curitibanos foi um dos eventos mais pacíficos da Guerra. Os sertanejos avisaram que atacariam a Vila. Os homens abandonaram a localidade e deixaram suas esposas e filhos no local. Os sertanejos incendiaram, por uma semana os prédios públicos, destruíram os documentos do Cartório e queimaram as propriedades do Coronel Albuquerque. Nenhuma pessoa da cidade foi agredida. Isto fica confirmado no processo do incêndio de Curitibanos [Processo de Francisco Alves de Assumpção Rocha. Advogado Henrique Rupp Júnior].

Mais da metade do grande município de Lages ficou em mãos dos rebeldes, que receberam o reforço de antigos federalistas locais, como o “castelhano”, Agustin Perez Saraiva, veterano da guerra de 1893. Um reduto foi organizado em São José do Cerrito, na Campina dos Buenos, chefiado por uma mulher, Maria Sete Pelos, esposa do Par de França Joaquim Vacariano. O assédio rebelde à Lages foi interrompido em novembro de 1914, quando morre em combate o chefe rebelde Chiquinho Alonso colocando fim à ofensiva cabocla.

 

A expedição do General Setembrino de Carvalho

Em setembro de 1914 os executivos da Lumber pedem uma intervenção das forças federais, pois o crescimento da atividade do “movimento fanático” colocava em risco “os negócios e o respeito à propriedade”. Depois do ataque rebelde às estações de Calmon e São João dos Pobres, ação que resultou na morte do Capitão Matos Costa, além de outros soldados do 11˚ Batalhão de Infantaria do exército, os governos de Santa Catarina e Paraná pediram, em conjunto, uma intervenção federal na região. A solução dada pelo Governo Federal foi nomear o General Fernando Setembrino de Carvalho como comandante da XI Região Militar (que englobava os Estados de Santa Catarina e Paraná) para apenas se dedicar às ações militares de repressão.

Entre os meses de outubro e novembro de 1914 o General Setembrino mobilizou 6 mil soldados do exército brasileiro (equivalente a metade do efetivo desta força), uniu à mais de 2 mil vaqueanos civis e passou a organizar estas forças em quatro colunas que teriam como finalidade estancar a expansão e iniciar o cerco aos redutos sertanejos. Uma coluna foi destinada ao norte, sob comando do Tenente Coronel Onofre, para defender dos ataques à Canoinhas (que estava sob fogo rebelde desde o mês de julho) e Três Barras (onde estava a maior serraria da Lumber), além de guarnecer a linha de ferro entre União da Vitória e Rio Negro e evitar que os rebeldes atravessassem o rio Iguaçu. Outra coluna foi destinada ao oeste, chefiada pelo Tenente Coronel Sócrates, tinha como finalidade vigiar a estrada de ferro ao longo do vale do rio do Peixe e evitar que os rebeldes ultrapassassem este rio para, a oeste, juntarem-se a seus potenciais aliados na região de Irani e em todos os Campos de Palmas. À leste, outra coluna foi organizada para estancar a ofensiva rebelde nas nascentes do rio Itajaí e, ao sul, a maior coluna, sob a chefia do tenente Coronel Estilac Leal, com mais de 2 mil homens, seria a principal coluna de ataque, a partir de Curitibanos, para destruir os redutos rebeldes. [Carta do teatro de operações das forças federais no Contestado mandado organizar pelo Tte. Cel. Francisco Raul d'Estillac Leal. Comte. do 58 Batalhão de Caçadores]

Ao longo dos meses seguintes, as colunas foram fechando o cerco sobre os rebeldes, diminuindo seu espaço disponível e reprimindo fortemente todo o comércio local, suspeito de abastecer os redutos de armas, munições e alimentos. Vários comerciantes foram presos. Em novembro de 1914, como parte desta operação de cerco, 17 comerciantes do vale do Iguaçu foram degolados pelo grupo de vaqueanos a serviço das forças oficiais, chefiados por Salvadorzinho Dente de Ouro. O massacre do Iguaçu criou vários problemas diplomáticos, pois muitos dos executados eram imigrantes italianos, espanhóis e austríacos.

 

A Chefia de Adeodato

No final do mês de novembro de 1914, o movimento rebelde passou por uma profunda reorganização. Após a morte de Chiquinho Alonso no combate do rio das Antas, a chefia foi assumida por um Par de França, Adeodato Manoel Ramos que, diferentemente de Alonso, que mantinha uma certa posição de coordenação confederativa sobre os redutos, passou a exercer um comando centralizado do grupo rebelde. Adeodato logo ordenou para que todos os redutos, guardas e piquetes rumassem ao vale do rio Santa Maria, no centro do território dominado pelos rebeldes. A ideia era construir ali uma cidadela inexpugnável, já que as bocas norte e sul do vale eram desfiladeiros de difícil acesso. Por vários meses a coluna sul tentou furar este bloqueio, sem sucesso. Somente na Páscoa de 1915, em 2 de abril, uma unidade bem armada da coluna norte conseguiu entrar e destruir o grande reduto de Santa Maria. Pelas informações prestadas pelo Capitão Tertuliano Potiguara, responsável pela destruição de Santa Maria, os militares encontraram no vale uma conurbação de redutos que, ao longo de 7 km, contaram 5.500 casas e dezenas de Igrejas, todas incendiadas e destruídas com a entrada da tropa militar. Calcula-se que em Santa Maria viveram mais de 25 mil sertanejos.

As condições de subsistência eram cada vez mais difíceis. A redução do espaço territorial e o aumento do cerco fez crescer, dentro dos redutos, a fome e as doenças. Há relatos dramáticos sobre a escassez de alimentos e a alta mortalidade provocada pelo cerco prolongado. Após a destruição de Santa Maria, em maio de 1915 o General Setembrino de Carvalho dá como encerrada a sua missão. No entanto ela já tinha a informação da formação de três redutos remanescentes, São Pedro, Pedra Branca e São Miguel. Estes redutos foram destruídos até o final de 1915, com a ação cada vez mais violenta de vaqueanos civis, que ficaram com as armas deixadas pelo exército.

 

O final

Em setembro de 1916, após o fim da guerra e a prisão de Adeodato, os Estados de Santa Catarina e Paraná assinaram um acordo de limites sob o patrocínio do Presidente Wenceslau Brás. As saliências de Timbó e de Itaiópolis e Papanduva ficariam com Santa Catarina e os Campos de Palmas foram divididos, quase ao meio, pelos dois Estados. Na cláusula 9 do Acordo ficavam assegurados os interesses dos Coronéis paranaenses. Havendo dúvidas quanto à titularidade de um imóvel, mesmo sendo em território agora atribuído à Santa Catarina, valeria o registro em cartório paranaense.

Em janeiro de 1918 vários rebeldes foram anistiados por Decreto da Presidência da República [Decreto n.3492 de 19 de janeiro de 1918]. No entanto, Adeodato Ramos, o último chefe rebelde, continuou ilegalmente preso, até ser morto, em 1923 pelo Diretor do Presídio de Florianópolis.

A pacificação da região não pôs fim ao culto à João Maria nem à retomada de reunião pelos sertanejos. Nos anos seguintes as polícias dos Estados sulistas serão chamadas para reprimir novas reuniões de caboclos em Mafra, Santa Catarina (1921), Pitanga, Paraná (1922), Concórdia, Santa Catarina (1924-25), Soledade, Rio Grande do Sul (1935-38) e Timbó Grande, Santa Catarina (1942). A tradição de São João Maria ainda é muito forte em várias comunidades do sul do Brasil, desde comunidades caboclas, indígenas, quilombolas e, também, de descendentes de imigrantes que, com o tempo, também “acaboclaram-se”.

 O acervo do Arquivo Nacional pode ser consultado em http://an/sian/Seguranca/Principal.asp 

Bibliografia básica

AURAS, Marli.Contestado: a organização da Irmandade Cabocla. Fpolis: Ed. UFSC, 1983.

ESPIG, Márcia J. A presença da Gesta Carolíngia no movimento do Contestado. Canoas: Ed. ULBRA, 2004.

MACHADO, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado: a formação das cheias caboclas. Campinas: Ed. UNICAMP, 2004.

MONTEIRO, Duglas Teixeira. Os Errantes do Novo Século. São Paulo: Duas Cidades, 1974.

VINHAS de QUEIROZ, Maurício. Messianismo e Conflito Social: a Guerra Sertaneja do Contestado (1912-1916). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1966.

 

 

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