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Uma feminista anarquista

Publicado: Sexta, 08 de Março de 2019, 12h02 | Última atualização em Quinta, 04 de Abril de 2019, 16h22 | Acessos: 187

As primeiras décadas do século XX foram marcadas por intensos movimentos sociais urbanos decorrentes, sobretudo, do recente processo de industrialização pelo qual atravessavam as principais cidades brasileiras durante a Primeira República. Nesse contexto, os trabalhadores imigrantes que desembarcavam no país, seja para as plantações de café no oeste paulista ou como mão de obra para a nascente indústria do centro-sul, tiveram papel medular na difusão dos ideais revolucionários que varriam a Europa no período. Anarquistas, socialistas, anarco-sindicalistas, comunistas, atravessaram o oceano em busca de liberdade e terras férteis para semear seus projetos de transformação da sociedade.

O cenário sociocultural, permeado por utopias reformistas, de superação das condições de opressão de um regime republicano que, apesar de novo, consolidava no poder a mesma oligarquia conservadora e autoritária do Brasil escravocrata, contagiava intelectuais e pensadores. Entre esses, Maria Lacerda Dias Moura e Fábio Lopes dos Santos Luz que fizeram de sua escrita, trincheira política para as lutas que agitavam o país.

A professora mineira Maria Lacerda foi uma das pioneiras do anarco feminismo no Brasil. Produziu artigos, conferências, livros e escreveu nos principais periódicos da imprensa anarquista, onde tratava de questões como: educação libertária, emancipação da mulher, anticlericalismo, amor livre, além do combate às formas totalitárias de governo que emergiram no velho continente e ganhavam adeptos no Brasil.

Em 1919, fundou, junto com Bertha Lutz, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. No entanto, diferentes concepções acerca do significado de emancipação feminina, levaram Maria Lacerda a não apenas romper com as sufragistas, mas a adotar uma postura crítica frente aquele “feminismo elitista”, que não propunha uma ruptura com o sistema, ao contrário, se integrava a ele a partir da participação política defendida. Suas pautas eram muito mais abrangentes, advogava pela ruptura dos padrões estabelecidos pela família burguesa e a maternidade compulsória; o domínio sobre o corpo; o divórcio e o amor livre.

Na década de 1920, Maria Lacerda passou a ter um maior envolvimento com ideologias de esquerda, em especial o anarquismo. Dialogou com pensadores libertários como o professor e filólogo José Oticica e o médico higienista e inspetor escolar Fábio Luz, com quem trocou cartas durante o período em que este esteve preso por sua colaboração no jornal anarquista “Voz do povo”. Ao mudar-se para São Paulo, nesse mesmo período, viu de perto a vida do proletariado e suas condições de trabalho. Em seus textos produziu críticas ferrenhas ao Estado, ao sistema representativo, ao voto, à família e à religião; a educação libertária seria o único meio de se alcançar a emancipação humana e consequentemente transformar o status quo.

Por seu posicionamento transgressor e investidas contra os valores fundamentais da sociedade burguesa, foi criticada e atacada, tornando-se, segundo sua biógrafa Míriam Leite, “indesejada e indigna de ser lembrada”. Faleceu em 1945, aos 58 anos, no Rio de Janeiro, onde trabalhou na rádio Mayrink Veiga.

A carta de Maria Lacerda pertence ao fundo Fábio Luz (PN), de natureza privada, doado ao AN pelo titular na década de 1930. Postais, cartões de visita, poesias, fotografias, impressos, recortes de jornais, correspondências, documentos sobre a ideologia e atuação anarquista no Brasil, Estados Unidos, Argentina, Uruguai, entre outros, além de críticas ao governo republicano estão entre os documentos que compõe o fundo – recortes que ajudam a revelar aspectos dos movimentos políticos contestatórios que atravessaram as primeiras décadas do século XX.

O vídeo faz parte do projeto Cartas de Arquivo, uma parceria do Arquivo Nacional com a Definitiva Cia de Teatro e a Via 78, que promove leituras dramatizadas de cartas do acervo da instituição. Nessa edição, foi apresentada a carta que Maria Lacerda Dias Moura, uma importante representante do movimento feminista, enviou para Fabio Luz, contendo considerações sobre o anarquismo, durante o período em que ele esteve preso.

 

Clique aqui para ler o documento na íntegra.

 

Carta de Maria Lacerda Dias Moura para Fabio Luz com considerações sobre o anarquismo durante o período em que este esteve preso. Barbacena, 18 de novembro de 1920. Fundo Fabio Luz.

BR RJANRIO PN.0.0.151

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