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Propaganda e política

Publicado: Segunda, 03 de Dezembro de 2018, 15h11 | Última atualização em Quarta, 05 de Dezembro de 2018, 11h21 | Acessos: 32

“O nordeste: desesperada busca de alimentos. O nordestino é o herói do cotidiano.”

Assim tem início a narração de Luiz Jatobá no filme produzido por Jean Manzon para o IPÊS (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) sobre os problemas sociais e econômicos enfrentados pela região nordestina brasileira. Imagens de desolação e morte, sem nunca mostrar os conflitos sociais em grande medida responsáveis pela tragédia social a se desenrolar na tela, são complementadas por um texto apelativo que transforma o sofrido e forte nordestino em uma vítima valente de condições naturais.

Em fins dos anos 1950, um grupo formado majoritariamente por empresários  — inclusive alguns estrangeiros — e militares, além de alguns intelectuais inicia um movimento de articulação política objetivando enfrentar o que por eles era visto como “tendência esquerdista da vida política,”ou seja, tendências que propunham políticas de redistribuição de renda, reforma agrária, desenvolvimento nacional independente, política externa autônoma, entre outras. O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS) foi fundado em 1962 por este grupo, na esteira da renúncia de Jânio Quadros e da ascensão de João Goulart, que consideravam seu mais perigoso inimigo. O que os unia, a despeito da inconsistência ideológica, além de um ódio visceral a qualquer coisa que lhes parecesse “de esquerda” eram “suas relações econômicas multinacionais e associadas, o seu posicionamento anticomunista e a sua ambição de readequar e reformular o Estado.” Dreifuss, 1964:a Conquista do Estado.

Transparecia também nas suas intenções manifestas o completo descompromisso, mesmo desprezo, em relação a democracia de uma forma geral. Afirmando claramente que “a direção do país não podia mais ser deixada nas mãos dos políticos” (documentação fundo IPÊS, Arquivo Nacional), este grupo de empresários e militares decidiu assumir a responsabilidade pelos rumos da política e da economia nacionais, iniciando uma campanha pela desestabilização do governo João Goulart que atingisse o grande público, através de panfletos, conferências, livretos, campanhas articuladas na grande imprensa e filmes. A produção de vasto material de propaganda buscava convencer diferentes setores da sociedade de que o Brasil era um país de futuro, mas que este encontrava-se ameaçado por um governo fraco, corrupto e "esquerdista,". O povo brasileiro deveria rejeitar as ideologias alienígenas e abraçar a paz social, a cooperação entre patrões e empregados como solução para todos os problemas, a defesa da família e da igreja como pilares da nação.

Os filmes do IPES eram exibidos em escolas, cinemas, clubes operários Brasil afora. Embora o público alvo fosse variado, os filmes cuidadosamente realizados por Jean Manzon conseguiam falar ao espectador médio, ao cidadão brasileiro comum que era chamado a tomar posição. No filme aqui exibido, “Nordeste, problema número um” as imagens de um sertão devastado pela seca, de homens e mulheres pobres, a beira da (ou em franca) indigência quase que naturaliza a miséria cujas origens encontram-se não apenas na inadequada gestão de recursos públicos e escassez de investimentos, mas na despropositada distribuição de terra, devastadora em um cenário já problemático do ponto de vista ambiental.

Fundo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. BR_RJANRIO_QL_0_FIL_02

Recomendação de leitura:

Dreifuss, René. !964: a Conquista do Estado. Vozes. Petrópilis, 1981.

GOUVEA, Viviane. Conspiração civil, golpe militar: a conspiração do IPES em palavras e imagens. Terceira Margem, [S.l.], v. 13, n. 21, p. 109-128, jun. 2017. ISSN 2358-727x. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/tm/article/view/11020>. Acesso em: 03 Dez. 2018.

 

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