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Fakenews do século passado

Publicado: Quinta, 02 de Mai de 2019, 15h35 | Última atualização em Quinta, 05 de Setembro de 2019, 15h11 | Acessos: 358
Panfleto da Liga Comunista Feminina "A socialização da mulher na Rússia". Rio de Janeiro, 1919. Série Interior - Estrangeiros: Visto - Expulsão - Permanência (IJJ7). BR RJANRIO A5.IJJ7.138

 

Fakenews do século passado: a socialização da mulher na Rússia

Arrolado como prova em inquérito para expulsão do território nacional do português Álvaro Duarte Cerdeira, acusado de ser “elemento pernicioso à sociedade e comprometedor da tranqüilidade pública” (decreto nº 1 641 de janeiro de 1907), o panfleto de autoria da Liga Comunista Feminina do Rio de Janeiro buscava esclarecer rumores sobre um “decreto” apócrifo de socialização das mulheres na Rússia, atribuído aos bolcheviques.

Segundo o tal decreto, divulgado pela “imprensa burguesa” mundial em meados de 1918, todas as jovens russas entre 17 e 32 anos seriam instadas pelo governo revolucionário sob o propósito de sua socialização: tornar-se-iam bens do Estado, podendo ser requisitadas por qualquer cidadão. Essa “infamíssima calúnia”, como diria o folheto, fez parte dos discursos travados em meio a uma conjuntura de tensões e disputas ideológicas, marcada pela a vitória da revolução comunista na Rússia em 1917, a difusão de idéias anarquistas e socialistas ao redor do globo e uma imediata resposta contra-revolucionária. Segundo a Liga Feminina, o decreto seria “obra de propagandistas anti-bolchevistas que tem dinheiro e meios em abundância para o seu ‘trabalhinho’. (...) E aqui está como se combate a revolução russa: com calúnias e infâmias... mas de burgueses não se pode esperar muita coisa.”

O panfleto, distribuído pelas ruas do Rio de Janeiro em 1919, protestava ainda, contra o conteúdo do célebre filme “A Lua Nova”, em cartaz no cinema Eden, cuja trama se desenrola a partir do referido decreto, instituído pelo vilão comunista vivido por Stuart Holmes, e que impediria o casamento da jovem russa interpretada por Norma Talmadge. A campanha publicitária do filme nos jornais da época divulgava: “Sob este título poético esconde-se um dos mais formidáveis dramas que temos conhecimento. Filme admirável, em seis partes, em que assistimos à agonia dessa Rússia gigante que se debate sobre o jugo bolchevique. (...) É sob esse decreto inaudito que gira este romance belíssimo; uma mulher que se levanta, que quer ter direito ao amor, à vida, à liberdade e à família.”

O papel da mulher e da família ganhou centralidade diante dos embates ideológicos travados, alimentados ainda pelo intenso movimento feminista que ganhava impulso no início do século XX. Enquanto Hollywood promovia a imagem negativa do governo russo, a opressão praticada contra as mulheres e a conseqüente destruição da família; o panfleto negava o absurdo que se constituía a existência desse decreto, alegando que “bolchevistas e anarquistas, longe de pensarem em socializar as mulheres, o que desejavam era que tanto para elas, quanto para os homens, haja inteira liberdade e independência.” Destacando, ainda, no final, como se organizariam as famílias na sociedade burguesa e no comunismo.

Munidos dos folhetos em questão, anarquistas organizaram protestos em frente aos principais cinemas da capital onde o filme estivesse em exibição. Ao serem detidos pela polícia da capital, a participação nos protestos foi usada como confirmação de que seriam "anarquistas perigosos” e o panfleto, prova inconteste de seu caráter subversivo. O Arquivo Nacional guarda em seu acervo diversos processos de expulsão de estrangeiros do país, sobretudo daqueles relacionados a atividades anarquistas durante as primeiras décadas do século XX, importantes fontes para a história da imigração no Brasil.

 

Sugestões de leitura: 

MENEZES, Lená M. Lua Nova: Hollywood e a propaganda contra-revolucionária.  ln: Lená M. Menezes, Denise Rollemberg e Oswaldo Munteal Filho. Olhares sobre o político - novos ângulos, novas perspectivas. Rio de Janeiro: Eduerj/FAPERJ, 2002, pp. 47-58.

MENEZES, Lená M. Feminismo(s): reflexões sobre silêncios, resistências e descontinuidades. In: Lívia Magalhães (org). Lugar de Mulher: Feminismo e política no Brasil. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2017.

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